Monday, August 31, 2009

ENTREVISTA DO MÊS

Negócio é o seguinte: depois de algumas tentativas, no mês passado conseguimos publicar a primeira entrevista respondida do Perry’s Land. O clima foi de tanta alegria e surpresa, que numa rompante empolgação lançamos o desafio: Você teria coragem de ser o entrevistado do próximo mês? E não é que teve um jovem que aceitou? Com vocês, Fábio Bianchini por ele mesmo.
 
Perry’s Land: Rapaz, tudo certo? Conte-nos de onde viestes, o que és e para onde vais.
Mutley: Rapaz, vim das imediações da mais bela e injustiçada das Maravilhas do Mundo Mané: o Banco Redondo. E por mais que o corretor automático do Word se ache muito esperto e tire o acento agudo de Mané, eu volto e acentuo de novo, a menos que eu esqueça. E é pelas imediações do Banco Redondo que eu permaneço. A menos que eu esqueça.
 
Outro dia, numa festinha de sexualidades múltiplas, uma garota me perguntou o que eu era. “Flamengo”, respondi. “Não. Sexualmente”, ela insistiu. “Também”, pensei em insistir. Mas preferi ser sincero por outros meios e disse: “Sexualmente? De bom a excelente”. Quando a moça sorriu e deu uma sacudidinha, percebi que a honestidade vale a pena.
 
Perry’s Land: Te chamam de Mutley, mas o senhor já teve, ou mantém, seus momentos Dick Vigarista. Assuma.
Mutley: Assumo. Mas é como eu digo, a honestidade compensa. O que não elimina os momentos Dick Vigarista, veja bem. É só uma questão de fugir dos roteiros da corrida maluca e vencer a corrida, porque aí terá compensado e, portanto, terá sido honesto.
 
Perry’s Land: O clima atual te agrada, ou continuarás aquela frescura de fazer a contagem regressiva diária do verão via Twitter (twitter.com/fabiobianchini)?
Mutley: Mas é claro que agrada. Pra ser ainda melhor, só se fosse verão. Esse negócio de gostar de inverno é coisa pra adolescente bebedor de café com creme que recém descobriu o existencialismo ouvindo Legião Urbana, aquela ânsia cafonaça por sofisticação. Geralmente é coisa de quem gosta mais de bistrôs e salas de teatro do que de vestidos curtinhos na Felipe Schmidt. Daí a convidar o sujeito prum sarau, é um já. Por outro lado, inverno é bom, sim. Só que é importante manter as coisas em perspectiva. Por isso, a contagem continua. A menos que eu esqueça.
 
Perry’s Land: Você é o Jedi que já foi, retornou, voltou e retornou da volta. Para viver como um nômade, basta colocar a camisa do Flamengo na mochila do Flamengo e partir para a próxima cidade?
Mutley:
Sim. Praticamente um Johann Cruyff, indo, voltando e fazendo futebol-arte em todos os cantos do campo. Mas é fundamental saber permanente para que lado fica o mar e qual a distância até a mais bela e injustiçada das Maravilhas do Mundo Mané, o Banco Redondo. E confesso, dessa vez quase esqueci de voltar e acentuar o “Mané”.
 
Perry’s Land: É mais fácil e mais agradável lidar com as letras ou com as notas musicais? Discorra, citando seus projetos, suas bandas, as redações onde trabalhou e as diferenças e semelhanças entre as duas habilidades. É, te vira.
Mutley:
Quando eu era calouro do Curso de Jornalismo, no meio duma viagem de carona pra Festa do Pinhão, conversava com o meu colega de viagem (que àquela altura já devia estar quase se formando, mas acabou participando da mesma turma que eu, mas isso é outra conversa) sobre a vida escolar e mencionei que costumava tirar boas notas em matemática no colégio. Uns quinze minutos depois, ele disse que meu texto tinha a ver com isso, porque meu jeito de destrinchar a informação era mais ou menos como organizar equações, jogando o que é x prum lado, isolando o que é y e assim por diante. Talvez tenha sido falta de assunto, mas acreditei.
 
Isso tudo é pra dizer que é basicamente a mesma coisa com letras e notas musicais: achar a frase que prenda o caboclo, ver como ela leva a outras e separar o que é x e o que é y. Se tiver um refrão, sempre fica muito melhor, claro.
 
Perry’s Land: E como o senhor - um cara totalmente overdrive, roqueiro de carteirinha, fã das bandas mais clássicas e geniais da história e com toda essa efervescência musical – explica o fato de ser fã de (pasmem!) Claudinho & Buchecha e Britney Spears. É dose né?
Mutley: Ih, isso é fácil. O modo de produção da Britney é herdeiro do mesmo que nos deu praticamente toda a Motown dos anos 60, pra ficar no exemplo mais óbvio. Ou aqueles grupos que o Phil Spector inventava. Bem verdade que ela não canta como o Marvin Gaye (que fazia música exatamente assim, em linha de produção). Mas no fim das contas, caem no colo umas pepitas que, se não chegam a ser “Be My Baby” ou “Baby I Need Your Loving”, também não fazem feio. E faz sentido. Se eu fosse um compositor pop com o refrão mais grudento da paróquia, prontinho para ser cantado e dançado pelo mundo todo, nada mais conveniente do que esse refrão estar no disco da moça que pode levá-lo pro mundo todo.
 
E as bandas mais clássicas e geniais da história são as mais clássicas e geniais justamente por causa disso, porque não tiveram pudores em emporcalhar as mãos quando acharam conveniente. Imagina alguém entrando no estúdio e berrando “porra, Paul, que escrotice é essa de baladinha com violinos? Larga mão dessa tal de ‘Yesterday’ e vamos voltar praquele cover do Carl Perkins”.
 
No caso de Claudinho & Buchecha é mais simples ainda: só love. Aproveito para lembrar que outro bastião do rock clássico e genial, Lord Sebas, canta “Quero Te Encontrar” de olhinhos fechados (verdade que é um desperdício esconder aqueles olhos dele) sempre que entra em Maringá com os pés sobre o painel do carro.
 
Perry’s Land: Convença-nos sobre os motivos os quais levaram o senhor a assumir as pickups, se tornando um renomado DJ dos agitos jovens que balançam a rapeize underground da ilha e região.
Mutley:
Ah, os quadris femininos… Mas ainda mais importante é desfilar por aí a minha sacola térmica com o logo das Água Mineral Charrua em que carrego para lá e para cá meu arsenal de CDs.
 
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Outro dia, numa festinha de sexualidades múltiplas, uma garota me perguntou o que eu era. “Flamengo”, respondi.
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Perry’s Land: Cite três motivos que poderiam fazer um jovem, numa noite fria e chuvosa, pegar a estrada para conferir uma performance de Fábio Bianchini arrepiando nas pickups.
Mutley:
1. A sacola térmica com o logo das Água Mineral Charrua.
2. Uma festa em que estou discotecando é uma festa em que estou.
3. Sempre rola “She Loves You” ou “Ain’t No Mountain High Enough”. Geralmente as duas.
 
Perry’s Land: O senhor foi um dos grandes difusores da saudosa eleição das 7 Maravilhas do Mundo Mané, que completa dois anos em setembro. O nobre entrevistado poderia lembrar um pouco, aqui pro leitor do Perry’s Land, o que foi e como ocorreu aquele fenômeno que mexeu com o coração do nosso povo?
Mutley:
 
Perry’s Land: Ah, nem me fala. Até me emociono, rapaz. Mas, na sua opinião formada pela experiência de vida, qual é a coisa mais mané que existe?
Mutley: Como assim? Eu nem respondi a pergunta. Mas já que tu disse pra não falar, eu não falo mesmo. Mas acho que poucas coisas são tão mané (nem vem, corretor automático) quanto saber que se uma pessoa nasceu na Carmela Dutra, tem muito mais possibilidades estatísticas de haver estudado no Coração do que no Catarinense.
 
Perry’s Land: Seria possível Fábio Bianchini escrever uma autobiografia? Qual seria o título do livro e por que teria tão poucas páginas?
Mutley: O título? Campeão, claro. E teria poucas páginas por causa da letra pequeninha, só para olhos atentos. Mas com o contrato na maior honestidade.
 
Perry’s Land: Certo, certo. Conte para o nosso leitor como que o senhor descobriu que Zeca Baleiro possui memória de elefante, entende?
Mutley: Foi graças a meu mentor, de novo ele, Lord Sebas. Aliás, poucos sabem, mas ele foi o responsável pela primeira assinatura em minha carteira de trabalho. Quase pagou com a vida, como no incidente em que nosso chefe nos proibiu de ficar sentados lado a lado. Foi também Sebas que observou: “vê se o Zeca Baleiro não canta feito o Pelé”. Era inequívoco.
 
Anos depois dessa observação, escrevi para a Bizz um texto sobre o novo lançamento de Baleiro, o disco Líricas. Aquele que trazia uma regravação de “Proibida pra Mim”, do Charlie Brown Jr, ideia (mas que filho da puta, em “ideia” ele coloca acento) que até hoje não compreendi. Após umas e outras considerações, concluí com algo como “analisar a cover de Charlie Brown Jr seria exercício irregular da medicina, pois não é caso para crítica musical, é para psiquiatria”.
 
Novo avanço diegético: agora eu estava na redação do Diário Catarinense e outra repórter, a Rafaela, o entrevistaria a respeito de outro lançamento, o Pet Shop Mundo Cão. No dia anterior, combinamos que eu faria a entrevista no lugar dela, então passei duas tardes ouvindo o disco e preparando-me para a conversa. Quando chegou a hora marcada, a assessora da gravadora ligou e perguntou se a Rafaela estava lá para a entrevista. Expliquei que não, quem faria seria o Fábio, assim sem sobrenome.
 
Começamos o papo e lá pelas tantas observei que um disco de inéditas era artigo escasso naquela época. Depois de concordar, ele arrematou: “Mas eu gosto de fazer releituras, como aquela de que você falou tão mal em seu texto pra Bizz”. Fiquei espantadíssimo, primeiro dele lembrar daquele texto. Depois, dele saber que o tal Fábio do Diário Catarinense era o mesmo da Bizz. Depois, à medida em que o papo foi em frente (na maior educação, que se diga), ele falou algo sobre falar bem de bandas escocesas. Quem me conhece sabe que bandas escocesas são centrais em meu cardápio musical e aí só pude concluir, ligeiramente embevecido, que ele de fato acompanhava meu trabalho.
 
Perry’s Land: No seu perfil do Orkut, o senhor elaborou um ping-pong onde se auto entrevistou. Você achou aquele bate-papo mais interessante do que este? Seja sincero.
Mutley: As perguntas daqui foram mais inesperadas, mas o interlocutor de lá (eu mesmo) é mais gato.
 
Perry’s Land: Bem, amigão. Da nossa parte é isso. Temos outras coisas para fazer e encerramos a entrevista aqui. Agradecemos sua paciência e este espaço é seu, meu rapaz. Deita o cabelo.
Mutley: Poucas pessoas no mundo, se é que alguma, sabem tão bem quanto eu como manter as camisetas no guarda-roupas em bom estado por tantos anos. E as pessoas devem conhecer a história de Bill Drummond. E, veja que coisa, o tempo de responder esse questionário foi exatamente o mesmo de ouvir o disco novo do Cidadão Instigado, exceto por essa última (essa, não a do Bill Drummond).


Fábio Bianchini agitando as pickups em ritmo de gripe suína.

Foto: André Lauz

Posted by Perry at 16:09:16
Comments

2 Responses to “ENTREVISTA DO MÊS”

  1. Anonymous says:

    zzzZZZzZZzZZzzZzZz

    ãh, acabou?

    Bruno

  2. Anonymous says:

    ZZZZZzzzzzzzzZZZZZZZZZZ

    ãh, acabou já??

    Bruno

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